• Leonardo Wandemberg

Se envaidecer, vai descer!

Atualizado: Ago 19


Em nosso contexto histórico-cultural caracterizado pelo pseudolaicismo, mesmo ateus/agnósticos já ouviram falar em "pecados capitais". Seriam realmente "sete"? O que posso dizer, no melhor linguajar jurídico, é que esse rol taxativo não encontra expressa previsão bíblica! E não são necessárias grandes pesquisas para constatar que se tratam tão somente de uma síntese elaborada pela Igreja acerca de condutas condenáveis supostamente identificadas ao longo do Livro Sagrado.


Mas a proposta aqui não é tratar de religião! Ainda que não tivessem nenhuma relação com a ideia de pecado, é nítido que qualquer dessas atitudes se mostra nociva à vida em sociedade (até mesmo a gula)! Desse elenco de transgressões comportamentais e morais, foquemo-nos naquela que, provavelmente, mais se populariza nos dias atuais: a soberba, também conhecida como "orgulho" ou "vaidade".


Antes de mais nada, já reparou não há ninguém bonito?! Isso mesmo, beleza não é um estado permanente. Todos nascemos com aparência rugosamente patelar, calvos e desdentados, e nossa imagem no espelho oscila bastante durante a vida pelos mais diversos motivos: desde a ação do tempo à ação do dinheiro. Causas hormonais, alimentares, estilo de vida, bon$ trato$ (vide Anitta), doenças (até uma dor de barriga é fator determinante). Enfim, absolutamente tudo influencia; sobretudo, uma make up bem feita ou o "modo beleza" da câmera de selfie!


Na melhor hipótese, "estamos" bonitos! Ou seja, é transitório. De modo que os esforços estéticos podem até estender um pouco a boa fisionomia; porém, mais cedo ou mais tarde – e não há como ter controle sobre esse momento –, nossa perecível carcaça orgânica inevitavelmente se deteriorará. Como conviver com essa infeliz realidade? Para quem se importa demais, deve ser perturbador!


Nem adianta dizerem que beleza é algo relativo. Relativismo e subjetividade têm seus limites! Personalidades como Ben Affleck e Gal Gadot ("Batman" e "Mulher Maravilha" no cinema) podem até não agradar 100% das pessoas do mundo (quem, meu Deus?!); mas, certamente, têm índices de "aprovabilidade" jamais alcançáveis por figuras como Clodoaldo (ex-jogador do Fortaleza E.C.) e Jocelyn Wildenstein (vide Google Imagens)! Mas por que falei de beleza? Simplesmente porque é o viés mais curto e sedutor entre o ser humano e a vaidade!


A vaidade sempre existiu. O mito greco-romano de Narciso é anterior ao Cristianismo, e existem várias menções bíblicas a esse desvio comportamental, dentre as quais, a trazida no livro de Provérbios (atribuído a Salomão), do Antigo Testamento, que condena veementemente a prática: "a soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda" (Provérbios 16:18).


Não obstante, o narcisismo ou autoexaltação ("espetacularização de si"), conforme estudado na Psicanálise, encontra na evolução da tecnologia sua mais poderosa aliada. Em 2007, já havia câmeras digitais, inclusive acopladas a telefones; as plataformas virtuais sociais também (Orkut e Facebook surgiram em 2004). No entanto, a partir daquele ano, a autoexposição nessas mídias se transformou em artigo de bolso (e bolsa), impulsionada pela reformulação dos smartphones e o acelerado avanço das redes de dados móveis.


Lembro bem que eu sempre desativava a Internet quando deixava de utilizá-la, e criticava quem não fizesse o mesmo, pois entendia que seu funcionamento em segundo plano iria sobrecarregar o precário sistema EDGE (pré-3G), que padecia das dificuldades inerentes à sua recém-implantação. Só que a vontade de saber quem estava interagindo com as postagens foi maior que a preocupação com a estabilidade da rede, obrigando as operadoras de telecomunicação a "se virar" para manter e expandir o serviço, que até hoje deixa a desejar!


Particularmente, sinto que algo está fora do eixo quando, ao ativar a câmera do celular, vejo meu próprio rosto. Assemelha-se ao efeito do lago sobre Narciso! Mesmo com tanto mundo ao redor, as lentes nunca estiveram tão voltadas ao ego.


Dentre as várias nuances da vaidade, acontece de tudo. Desde quem queira mostrar que a sua chikungunya foi mais grave que a zika do outro, até o prazer de ser a pessoa que contou uma tragédia "em primeira mão" (como legítimo porta-voz do Apocalipse, esse grande evento global). Lutos divulgados quase em outdoors, enaltecimento de desgraças, e por aí vai. Até quando alguém comenta em uma foto de viagem do amigo coisas do tipo “aproveite, que esse lugar é ótimo”, só está querendo dizer “eu também estive aí”!


Quando se publica fotos exibicionistas/ostentadoras, há um natural envaidecimento pelos likes e comentários recebidos, que nem sempre vem acompanhado da consciência de que essa atitude surte pelo menos dois relevantes efeitos: 1) alimenta a desesperada lascívia de quem só copula em tese; 2) alimenta outro pecado, a inveja. E o que dizer dos chamados "influenciadores digitais", que (literalmente) se vendem como pessoas "diferenciadas" no intuito de serem "copiadas"? Vai entender!


A vaidade é prima-irmã do ufanismo. Isso me lembra uma senhora de meia idade que sempre encontro na caçada de um supermercado, ao lado de um quiosque de espetinhos (churrasquinhos). Lá, ela passa noites inteiras contando a quem quer que esteja por perto como é bacana a sua amizade com o ex-marido, e como seus filhos passaram em concursos e viajam bastante ao Exterior. É apenas seu jeito particular de se envaidecer, mesmo sendo uma mera senhora de meia idade divorciada, que precisa se sentar na calçada, ao lado de uma barraca de espetinhos, em busca de alguém que possa escutá-la, já que seu ex-marido "amigo" tem algo melhor para fazer naquele momento (nem vou dizer o quê), e seus filhos estão ocupados demais tendo sucesso na vida!


Ao contrário do que insistimos em acreditar, a nossa rotina não importa para muita gente! Talvez, no máximo, para 10% dos nossos "amigos" virtuais (no mundo real, esse percentual é ainda menor). Ninguém se sente "feliz" por estarmos comendo bem, bebendo e desafinando em festas, mostrando as pernas na praia, ou, na hipótese mais "forever alone", assistindo a uma série na "BadFlix". Ainda assim, somos seduzidos (e iludidos) pelos números. Todos vestimos, em algum nível, o confortável poncho da vaidade!


Parece ser mais forte a nossa condição de subjugados à "profecia" do americano Andy Warhol, que, há várias décadas, proferiu a célebre frase sobre os “15 minutos de fama”. E não poderia ser mais atual, afinal, ninguém mais quer ser fã, todos almejam ser "ídolos", transformando seu simples cotidiano em objeto de tietagem. Para alguns poucos, até dá certo ($)!


Remonta ao longínquo ano de 1497 ("pré-Brasil") a expressão "fogueira das vaidades", que faz alusão à ação de fanáticos seguidores do padre Girolamo Savonarola, que queimaram publicamente milhares de objetos em Florença, na Itália, dentre livros, quadros (inclusive, do mestre Sandro Boticelli), artigos de luxo e outros itens tidos como supostamente pecaminosos. Referência ao evento ainda hoje é utilizada de forma metafórica como crítica ao apego sobre o efêmero e o supérfluo.


O brilhante professor Leandro Karnal, historiador da Unicamp, tem feito bastante sucesso na Internet com vídeos de suas palestras enfatizando justamente o fenômeno da vaidade nas redes sociais, e a "perda da autoridade" diante da soberba e oportunização dos "imbecis". Inclusive, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, por acaso, no aeroporto de Fortaleza, e lhe pedi para tirarmos uma selfie. Por falar em vaidade, lá estava eu, já pensando no Instagram e exercitando toda a minha!


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Foto: "Narciso" - Caravaggio, 1594-1596.


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