• Leonardo Wandemberg

Ao infinito e amém!

Atualizado: Ago 19


Como bom cinéfilo que sou, tive a satisfação de assistir, recentemente, ao comovente filme "Extraordinário" (Wonder), que faz jus ao nome por mais uma brilhante interpretação do talento mirim Jacob Tremblay (de "O Quarto de Jack").


O enredo, extraído do livro homônimo da escritora americana Raquel Jaramillo, mais conhecida por J. R. Palacio, traz como protagonista um garoto que nasceu com deformidade física e, além de fã de Star Wars, é apaixonado pelo espaço e pela ciência. Esse contexto, inevitavelmente, fez com que eu lembrasse de passagens da minha própria infância.


Recordo-me que, quando criança, morando em uma casa mais simples, costumava me deparar com pequenos “sóis” que se formavam pelo chão a partir de brechas no telhado, através das quais a luz teimosamente entrava. Essas mesmas brechas, em dias chuvosos, causavam imensos (e imersos) transtornos.


Data dessa época o meu encantamento pelos astros. Não os humanos (muitos nem são tão brilhantes assim), os espaciais mesmo! Tanto que um dos momentos mais felizes do ano era quando meu pai chegava em casa com os livros novos para o período letivo.


Não era só por aquele cheiro maravilhoso de tinta, nem pela divertida força-tarefa de encapá-los para lhes prolongar a vida útil, a fim de vendê-los no ano seguinte. Minha grande satisfação era correr ao encontro dos livros de ciências, na ânsia de ver as novas ilustrações do Sistema Solar, cada vez mais coloridas, imponentes, respeitando as proporções entre o Sol e os planetas. Meu predileto era Saturno (ainda é)!


Nem titubeava quando faziam a clássica pergunta sobre o que eu queria ser quando crescesse. De plano, respondia: “quero ser cientista”. Algumas vezes, mais enfático: “quero ser astrônomo”, o que jamais confundi com "astrólogo". Era o anúncio de que já tinha a cabeça no "Mundo da Lua"!


Ah, a Lua... Incontáveis as vezes em que eu, por volta dos 6 anos de idade, ia dormir mais tarde (ou acordava de madrugada), somente para testemunhar os eclipses lunares, os quais a mídia noticiava com bem menor repercussão do que hoje. Na Terra, preferimos nos confinar em nossos pequenos universos; mas meu olhar, desde muito cedo, era voltado para a imensidão.


Atualmente, na era das redes sociais, todo mundo quer mostrar que ama o pôr do sol e a superlua (ontem, por sinal, ocorreu a primeira de 2018); afinal, isso é cool, atrai likes! Tudo bem, longe de mim pretender julgar quem faz dos corpos celestes a sua mídia (quando não o faz do próprio corpo), mas eu sim sou amante antigo do cosmos.


Ainda me pergunto por que não acreditei nos meus sonhos de infância. Poderia estar na NASA, no INPE, ou simplesmente trabalhando em um planetário. Acabei escolhendo trocar a Astronomia por ser rico. A consequência disso é que não me tornei astrônomo... Nem rico!


Opa, é só falar do espaço que tiro os pés do chão! Voltemos à velha casa... Aqueles pequenos buracos no telhado, quando livres das tempestades, proporcionavam projeções maravilhosas. Nos eclipses solares, eu nem precisava ir atrás de uma chapa de raio-x, pois podia ver, em cada bolinha de Sol, a sombra faminta da Lua lhe degustando um pedaço. Eram vários eclipses simultâneos só pra mim!


Sobre o que era projetado, via nitidamente a forma das nuvens que encobriam o Sol, reproduzidas na área de penumbra que circundava os pontos luminosos, e exercitava a pareidolia. Estava eu diante do principal fundamento da fotografia – que aprendi a amar pouco depois, com as pitorescas, descartáveis e sugestíveis câmeras Love –, em que a luz entra pelo orifício da câmara escura e a imagem de fora se projeta invertida do lado oposto (SPOILER: o filme mencionado também traz essa referência).


Sem querer parecer lamecha, chego a acreditar que talvez seja assim a nossa interlocução com o plano divino. Não conseguimos ver o Céu, mas sabemos que ele existe quando nos permitimos enxergar por meio dessas frestas pelas quais Deus nos ilumina, e projeta do lado de cá uma réstia das suas dádivas. Cabe a nós a interpretação correta do que é refletido para o espírito!


Não falo de religião, mas de fé! Daquele tipo que toda criança tem em abundância, como eu também tive, capaz de fazê-la acreditar que um dia poderá viajar pelas galáxias. É essa fé que não deve ser perdida jamais. Por mais que cresçamos e percebamos que nunca conseguiremos conquistar o espaço sideral, podemos tentar ser o melhor de nós em qualquer espaço que tenhamos conquistado; seja no nosso ambiente de convívio ou dentro de um coração.


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Foto: Leonardo Wandemberg.


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